Intolerância ao Glúten, Infertilidade e Gestação de Risco

O glúten é uma proteína ergástica amorfa que se encontra na semente de muitos cereais combinada com o amido. Representa 80% das proteínas do trigo e é composta de gliadina e glutenina. Ele é responsável pela elasticidade da massa da farinha, o que permite sua fermentação, assim como a consistência elástica esponjosa dos pães e bolos.

Milhões de pessoas têm doença celíaca, mas a maioria não sabe disso, em parte porque os sintomas podem ser tão variados. A doença celíaca (DC) é uma afecção inflamatória crônica  e auto-imune caracterizada por permanente intolerância ao glúten contido no trigo e em cereais afins. Em sua forma clássica manifesta-se por diarreia, distensão abdominal e desnutrição progressiva (Síndrome da Má Absorção). Estas alterações, em indivíduos geneticamente predispostos resultam de resposta auto-imune mediada por linfócitos T, que leva a lesão progressiva no intestino delgado, caracterizada por infiltração linfocitária no epitélio jejunal, atrofia vilositária e hipertrofia nas criptas.

A DC apresenta amplo espectro de sintomas e de afecções associadas que englobam vários outros órgãos e sistemas, como: anemia ferropriva resistente ao tratamento, osteoporose, baixa estatura, dores articularesdiabetes tipo 1, síndrome de Down, síndrome de Turner, além de síndromes neurológicas como epilepsia com calcificação occipital, ataxia cerebelar e neuropatia periférica.

Do ponto de vista epidemiológico a DC configura-se como importante problema de saúde pública. No Brasil, onde era considerada uma doença tradicionalmente rara, estudos de rastreamento detectaram uma prevalência variando entre 1:681 em grupo de doadores de sangue presumivelmente sadios e 1:293 em grupo de adultos e crianças sem queixas gastroentéricas. Estima-se que a DC afete entre 4 e 8% das mulheres com diagnóstico de infertilidade sem causa aparente.

Em recente pesquisa, verificou-se a  correlação entre o tempo de exposição ao glúten e o progressivo aumento de desordens auto-imunes. A presença de auto-imunidade em indivíduos com DC pode variar entre extremos de 5,1% entre crianças com menos de dois anos e 34% em adultos com mais de 20 anos de idade. Os autores aventam a possibilidade de que presença de anticorpos específicos e resposta auto-imune mediada por células T poderiam estar associadas à eclosão de disfunção do aparelho reprodutor feminino.

Os pesquisadores hoje podem afirmar que as pacientes portadoras (es) de Doença Celíaca não tratada tem mais chances de se tornarem inférteis, serem mais propensas a abortos e a nascimentos prematuros. Está comprovado que as mulheres celíacas tem uma menarca tardia e uma menopausa precoce, ainda sofrem mais frequentemente de amenorreia secundária (a menstruação começa e para) e, consequentemente, tem menos ovulações que a maioria.

Para os homens, os problemas podem incluir espermatozoides anormais quanto ao número, a forma  e a função. Os pacientes com doença celíaca não tratada também podem ter níveis mais baixos de testosterona.

Um estudo italiano sugere que as relações sexuais ocorrem com menos frequência quando um dos parceiros tem a doença celíaca ativa em comparação aos casais em que a doença celíaca do parceiro estava sendo tratada.

Caso a paciente celíaca consiga naturalmente conceber, ela pode vir a enfrentar outros problemas, tais como: abortos, parto prematuro, natimortalidade aumentada, defeitos de fechamento do tubo neural, atraso de crescimento in útero e/ou redução no tempo de lactação. Nestes casos o risco relativo de aborto múltiplo e recém-nato de baixo peso é 8,9 vezes maior do que o da população geral; por isto, recomenda-se que se a paciente tem abortos de repetição, seja feita o teste para a doença celíaca, podendo haver casos em que o teste sorológico seja negativo e que assim sendo seja necessária a realização do exame histopatológico da mucosa duodenal.

A boa notícia é que com o tratamento adequado, com a dieta sem glúten e correção das deficiências nutricionais, o prognóstico para as futuras gestações é muito melhor. Devido ao baixo custo dos testes que atualmente fazem parte dos exames laboratoriais de rotina, seria de grande utilidade o rastreamento de possíveis casos de DC entre mulheres com queixa de infertilidade, especialmente porque a investigação de possíveis causas de infertilidade geralmente é demorada, trabalhosa e cara, redundando eventualmente em resultado inconclusivo. O diagnóstico precoce de DC nestas pacientes evitaria investigações demoradas, desnecessárias e custosas na busca de uma possível causa para sua infertilidade.

Fica a dica: se você é treinante e não sabe se é ou não intolerante ao glúten ou ainda mesmo que não seja, reduza ao máximo a ingestão de alimentos que contenham glúten!

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